O consenso excessivo no Conselho pode sinalizar um problema de governança

Reuniões tranquilas. Poucas divergências. Decisões consensuais. Relações cordiais entre empresários, executivos e conselheiros.

À primeira vista, parece o retrato de um Conselho maduro.

A ausência de conflito merece atenção.

Em alguns Conselhos, ela pode revelar silêncio em vez de alinhamento.

Uma pesquisa de Engbers e Khapova investigou justamente aquilo que raramente conseguimos enxergar nos Conselhos: a diferença entre o que os conselheiros dizem durante as reuniões e aquilo que realmente pensam, mas decidem não dizer.

As pesquisadoras acompanharam 17 Conselhos holandeses, observaram e gravaram 19 reuniões e entrevistaram seus integrantes posteriormente.

O resultado chama a atenção: 16 dos 17 Conselhos evitavam o conflito cognitivo, em parte porque seus membros presumiam que expressar divergências poderia gerar conflitos pessoais e prejudicar a coesão do grupo.

O silêncio não significa consenso

A governança convive com uma tensão importante: um Conselho precisa de coesão para funcionar e de divergência para examinar diferentes perspectivas.

Quando todos concordam rapidamente — ou parecem concordar —, convém observar se há consenso genuíno ou receio de provocar desconforto.

O estudo identificou quatro diferentes “climas de conflito”, resultantes da combinação entre coesão e conflito cognitivo.

Entre eles, destaca-se o agree-to-disagree climate: um ambiente no qual os conselheiros conseguem discordar, explorar perspectivas diferentes e, ao mesmo tempo, preservar confiança e coesão.

Um Conselho efetivo cria condições para que seus integrantes expressem divergências e as utilizem para melhorar as decisões.

O objetivo é transformar o conflito de ideias em análise mais cuidadosa, preservando a confiança entre os membros.

Ter diversidade na sala não significa usar a diversidade

Esse achado também provoca uma reflexão sobre diversidade nos Conselhos.

Podemos reunir profissionais com diferentes experiências, formações e competências. Mas, se essas pessoas não se sentem à vontade para questionar o fundador, o CEO, o presidente do Conselho ou os demais membros, parte desse conhecimento nunca chega à decisão.

Existe uma diferença importante entre ter diversidade na sala e usar a diversidade que está na sala. Currículos diferentes não garantem pensamento divergente se todos aprenderem que é melhor permanecer em silêncio.

O conhecimento que permanece fora da reunião

Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa foi justamente comparar as reuniões gravadas com as entrevistas realizadas posteriormente.

Isso permitiu identificar o “unsaid”: aquilo que os conselheiros pensavam ou sentiam, mas não verbalizavam.

As entrevistas revelaram uma dimensão pouco visível nas reuniões; parte do conhecimento dos conselheiros pode ficar fora das decisões quando eles não se sentem confortáveis para discordar.

Em alguns casos, o silêncio pode refletir receio de prejudicar relacionamentos, diferenças de poder, medo de contrariar lideranças ou simplesmente a percepção de que determinada opinião não será bem recebida.

Por isso, silêncio não é necessariamente concordância.

A importância do debate nos Conselhos Consultivos

Essa discussão é especialmente relevante para pequenas e médias empresas.

Um Conselho Consultivo pode trazer para perto do empresário experiência, conhecimento especializado, visão externa e novas perspectivas.

Mas reunir bons profissionais em torno de uma mesa não garante que esses recursos serão efetivamente utilizados.

Se os conselheiros evitam contrariar o fundador, não fazem perguntas difíceis ou preferem discutir os problemas depois da reunião, o Conselho pode existir formalmente sem entregar todo o seu potencial.

Ter Conselho não significa necessariamente ter aconselhamento de qualidade. E aqui o papel do presidente do Conselho torna-se fundamental.

Mais do que organizar pauta e controlar o tempo, ele precisa ajudar a criar um ambiente no qual alguém possa dizer: “Eu vejo essa questão de outra forma.”

Sem que a discordância seja interpretada como oposição pessoal ou ameaça à autoridade.

Sinais de um Conselho que debate

A qualidade do debate pode ser observada em aspectos que vão além do número de reuniões e do cumprimento da agenda:

  • Os conselheiros têm liberdade para discordar do fundador ou CEO;
  • Opiniões minoritárias recebem espaço antes da decisão;
  • O presidente estimula perspectivas diferentes antes de encaminhar o consenso;
  • Assuntos difíceis são discutidos na reunião, em vez de migrarem para conversas de corredor;
  • Há espaço para que os conselheiros expressem o que pensam, inclusive quando divergem.

Governança não é ausência de conflito

Governança de qualidade não deveria produzir unanimidade artificial. Deveria produzir melhores decisões.

E melhores decisões frequentemente exigem pessoas suficientemente independentes para questionar — e suficientemente maduras para continuar colaborando depois da discordância.

Um Conselho maduro pode afirmar: “Aqui podemos discordar seriamente e continuar confiando uns nos outros.”

No Conselho do qual você participa, observe se o consenso convive com espaço real para a discordância.

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